Crescimento dos jornais impressos contraria profecias.

 

 

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, a “Circulação de jornais cresce 8,1% no semestre” (OESP , 4 de agosto de 2008 – página B-17). Isso contraria todas as expectativas, principalmente as que previam que os jornais impressos estariam com sua tiragem em queda e fadados a um desaparecimento rápido.

 

A reportagem ressalta que o crescimento é localizado, o que leva a WAN (Word Association of Newspaper) a registrar aumento na circulação mundial devido ao crescimento específico de três países: China, Índia e o Brasil. Porém, mesmo o tradicional New York Times teve um crescimento de 2,1% em sua circulação se comparadas as tiragens do primeiro semestre do ano passado com as deste ano.

 

Como os dados são baseados nos relatórios dos 103 jornais filiados ao IVC (Instituto Verificador de Circulação), não entram nessas estatísticas os jornais distribuídos gratuitamente e que têm grande circulação, como o Destak e Metro. Só podem ser filiados ao IVC os jornais que têm uma tiragem que pode ser auditada, os que cobram por seus exemplares.

 

Os dados do IVC mostram algumas informações interessantes. Uma é que os jornais mais tradicionais, como a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo, tiveram aumento na média diária de seus exemplares. A Folha ultrapassou a barreira dos 300 mil exemplares, com um incremento de 5,9% nesse período, enquanto o Estadão chegou a 257.810 exemplares, com uma evolução de 8,1%.

 

A surpresa fica por conta de jornais como o Meia Hora, do Rio de Janeiro, e o Super Notícia, de Minas, que passou de 179 mil exemplares no primeiro semestre de 2007 para 301 mil exemplares no mesmo período deste ano, superando assim quase todos os jornais do país, tornando-se o segundo mais lido, tendo somente a Folha de S. Paulo à sua frente.

 

Primeiro é necessário destacar-se que todos os jornais fizeram suas reformas gráficas, tornando-se esteticamente mais atraente, com mais fotos, infográficos e reportagens mais curtas. O Super Notícia, por exemplo, usa a fórmula adotada há anos nos Estados Unidos pelo USA Today, com muita cor. Acrescentou mulheres seminuas e chamadas muito curtas na primeira página.

 

O Jornal Meia Hora é do Rio de Janeiro, ligado ao Jornal O Dia, com tradição na imprensa popular. Segue a mesma linha do Super Notícia, com muita cor, mulheres, novelas e futebol em suas principais reportagens.

 

A grande questão que se discute com os dados referentes aos jornais impressos é o quanto a Internet contribuiu negativamente ou positivamente para que estes números fossem alcançados. O senso comum indicava que com o surgimento da Internet os jornais impressos desapareceriam.

 

Pesquisa feita pela Ipsus Marplan, feita em 2005, mostrava que 48% dos leitores brasileiros entrevistados liam o jornal em sua versão impressa e também na Internet. E 47% liam apenas a versão impressa. O percentual dos que liam apenas a versão na Internet era de somente 1%. Talvez esses dados expliquem os estudos da Associação de Jornais da América que contabilizou um número recorde de visitantes de sites de jornais no em 2007, nos Estados Unidos. Segundo a associação, a média de usuários desses serviços atingiu 60 milhões de visitantes ao mês, com crescimento de 6% em relação a 2006.

 

Pode-se questionar que tiragem não é o fator mais importante para a sobrevivência financeira de uma organização jornalística, já que a arrecadação obtida com vendas em bancas e para assinantes tem pequeno peso no faturamento dos jornais. Pesquisa realizada pela Inter-Meios, do Grupo Meio & Mensagem, divulgada no começo deste ano, mostra que em 2007 os jornais recuperaram sua participação no mercado das verbas publicitárias, que vinham caindo desde 2000. Em 2007 os jornais ficaram com 16,3% das verbas publicitárias, o que representa um total de R$ 3,1 bilhões. Ou seja, houve recuperação de tiragem, mas também de faturamento, o que completa um quadro bastante positivo.

 

Vale uma análise à parte a mudança do perfil dos jornais para enfrentar a Internet e quanto a rede mundial de computadores contribui para aumentar ou diminuir a leitura dos jornais.

 

Apesar da aparente concorrência, serviços eletrônicos como o Google dependem dos jornais para conseguirem reportagens e novidades. E parece cada vez mais ocorrer uma simbiose, ou sinergia, entre os veículos.

 

Leitores, credibilidade e publicidade formam a tríade do sucesso na área editorial. Por isso o New York Times abriu seu conteúdo no final do ano passado, acabando com o “Times Select”, que restringia o acesso a algumas reportagens. É melhor que muitos leiam para que os anunciantes venham atrás. Em jornalismo, credibilidade e interesse dos leitores são fundamentais.

 

 

 

José Alves Trigo. Jornalista. Editor do Sistema RCC. Professor das universidades UniFiam, Mackenzie e Unip e mestre em Comunicação pela Fundação Casper Líbero.