Concorrência da internet não afeta
circulação de jornais no Brasil
Enquanto o jornalismo tradicional nos
Estados Unidos e em outros países desenvolvidos passa por um sério período de
crise, com queda acentuada nos números de exemplares em circulação, demissões
em massa e diminuição dos leitores, a circulação dos jornais nos países
emergentes, como Brasil, Índia e China, cresce de maneira surpreendente.
Seria esse um argumento para os meios de comunicação brasileiros não se
preocuparem com a rápida disseminação da Internet já que, só no ano passado, a
circulação dos nossos jornais aumentou 12%? De acordo com um debate na manhã
desta segunda-feira (18), no 7º Congresso Brasileiro de Jornais, promovido pela
ANJ (Associação Nacional de Jornais), a resposta é não.
Em contrapartida ao aumento de circulação dos jornais, a Internet no Brasil
também não pára de crescer. Enquanto a soma dos exemplares das 30 maiores
publicações diárias do país chega a cerca de 3,5
milhões - número semelhante ao das maiores revistas, segundo dados do Instituto
Verificador de Circulação (IVC) - uma pesquisa do Datafolha mostra que o
Brasil já alcançou a marca de 59 milhões de internautas,
em dados apresentados por Caíque Severo, diretor de conteúdo do iG.
Para Rosental Calmon Alves, diretor do Knight Center for Journalism in the Americas, na Universidade do Texas (EUA), embora a situação
do Brasil pareça promissora em relação à dos Estados Unidos, por exemplo, não
podemos fingir que não há uma mudança ocorrendo. "A sociedade industrial
está sendo substituída pela sociedade da informação ou do conhecimento. Surge
um outro sistema de mídia, e a Internet é apenas a ponta mais visível de uma
nova revolução, a revolução digital", analisa o jornalista.
Aposta na interatividade
E como acompanhar essa transformação? Nos Estados Unidos, onde a crise se faz
mais aparente, as empresas de comunicação estão apostando na interatividade com
o leitor. A Internet transformou os consumidores de notícias, que deixaram de
ser receptores passivos para, pela primeira vez, serem também transmissores,
através de blogs, por exemplo. A mídia tradicional
perdeu o controle e o poder da informação, que está cada vez mais na mão dos
indivíduos. "Ninguém fala no fim da comunicação de massa, mas em uma
mudança na forma de fazer essa comunicação", diz Rosental.
Um exemplo dessa transformação no Brasil foi dado por Aloy
Jupiara, editor executivo da Globo
Online. Ele explicou que a Internet vai se conjugar
com o meio impresso para criar algo novo, com o leitor cada vez mais ativo. O
jornalista passa a ser mediador do diálogo, e não mais dono da informação. Para
isso, o jornal O Globo aposta em ferramentas como o "Eu Repórter" -
em que os leitores mandam fotos e pautas para a redação - e a publicação no
jornal impresso de comentários feitos no site. "É um compromisso de
pertencimento. Os leitores acreditam que o jornal é um jornal deles",
afirmou Aloy.
Aquecimento da economia brasileira
Em um palestra realizada também nesta segunda, Miguel Jorge, ministro
do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior explicou porque a
circulação de jornais tem crescido no país. "A performance da indústria
jornalística tem relação com o crescimento econômico. Se a economia vai mal, as
vendas caem", decalrou Jorge. Ele acredita que o
crescimento da classe média é um fator decisivo para o aumento de leitores.
"A busca por notícia tende a crescer quando as pessoas entram no mercado
de trabalho e acham que tem mais direitos. Para um
semi-analfabeto, ler um jornal é status", disse.
E como será a conjuntura nacional para os meios de comunicação daqui a dez
anos, em 2020? "Para mim há uma conclusão óbvia: a indústria brasileira de
jornalismo de 2020 refletirá o Brasil de 2020. Os jornais não desaparecerão
para os meios eletrônicos. Sobreviverão e se apropriarão das novas mídias em
seu proveito", declarou o ministro.